Inteligência artificial, naturalmente.

A pergunta não é se a IA vai substituir produtores e designers. É qual parte do nosso trabalho era preenchimento – e qual era pensamento.

FA

Fábio Assis

Em 1492, escribas profissionais ainda copiavam livros à mão em muitas regiões. Era um ofício respeitado, especializado, bem pago. Quase quarenta anos antes, Gutenberg havia colocado a primeira prensa de tipos móveis em operação. Em 1500, a maior parte dos escribas profissionais tinha mudado de profissão.

Não porque eles fossem ruins. Porque a profissão mudou.

Não é sentimentalismo dizer que estamos vivendo um momento Gutenberg. Mas é desonesto fingir que não.

O que mudou no trabalho de PM

Discovery acelerado. Pesquisa de mercado em horas, não semanas. Análise de centenas de tickets de suporte em minutos. Resumos de reuniões automáticos. Transcrições, taggings, clusters de feedback. PRDs gerados a partir de bullet points.

A parte burocrática do trabalho de produto virou commodity.

Antigamente eu gastava horas escrevendo a versão inicial de uma especificação técnica. Hoje gasto vinte minutos descrevendo a intenção e duas horas revisando, refinando, contestando o que a IA propôs. O resultado é melhor – e o trabalho mudou de natureza. Deixei de ser autor da primeira linha. Passei a ser editor crítico de tudo.

O que mudou no design

Mockups por prompt. Iterações em segundos. Design systems gerados a partir de uma página de referência. Variações infinitas de um mesmo layout. Code-aware design – a ferramenta entende o que já existe no código e propõe consistência.

A parte execucional virou rápida. O que continua humano é a escolha do que fazer – não como fazer.

E aqui mora o risco. Quando produzir é fácil, produzir mal vira tentação. As landing pages de SaaS de 2026 são idênticas, em parte, porque foram todas geradas pelo mesmo subconjunto de modelos treinados nos mesmos exemplos. Já escrevi sobre essa homogeneização. A IA acelerou o problema.

A nova divisão de trabalho

O que humanos fazem melhor: julgamento. Contexto que não está nos dados. Estratégia que envolve risco real. Ética. Gosto. A escolha entre vinte opções igualmente competentes.

O que a IA faz melhor: execução. Escala. Paciência infinita. Variações combinatórias. Trabalho que não exige presença, apenas competência.

O profissional valoroso de hoje é o que usa a IA como instrumento – não como muleta. A diferença entre os dois é repertório. Quem não conhece a teoria, não sabe distinguir o output medíocre do bom. Quem não conhece o problema, não sabe formular o prompt.

A IA amplifica julgamento existente. Não substitui julgamento ausente.

O risco do amadorismo automatizado

Aqui está o paradoxo: a IA democratizou a produção sem democratizar o critério.

Hoje qualquer pessoa consegue gerar um PRD que parece profissional. Uma landing page que parece moderna. Um wireframe que parece resolvido. Mas parecer resolvido e estar resolvido são duas coisas diferentes.

Quem não desenvolveu repertório agora produz mais – mas pior. O output passa pelo filtro do “isso parece bom” sem nunca encarar o filtro do “isso é bom para esse caso específico, esse cliente, esse contexto?”.

A boa notícia é que esse problema é uma vantagem competitiva. Quem aprendeu fundamentos antes da IA tem agora uma alavanca enorme. Quem não aprendeu vai produzir mais ruído mais rápido.

O que continua importando

Olhar crítico para o output. Saber descartar 80% do que a IA propõe sem culpa.

Conhecimento profundo do problema do cliente. A IA não tem acesso ao seu contexto, suas conversas, sua intuição construída em anos. Ela tem acesso ao que está escrito na internet.

Capacidade de escolher uma direção em meio a infinitas opções. Priorização é mais valiosa agora, não menos.

Empatia com o usuário real. A IA simula empatia muito bem. Não tem empatia. A diferença importa.

Gosto. Difícil de definir, fácil de reconhecer. A obsessão pelos detalhes que ninguém vê, mas que todo mundo sente.

Não é o fim. É a próxima fase.

Os escribas não desapareceram. Viraram editores, autores, professores. A profissão se transformou, e quem se transformou junto seguiu relevante. Quem segurou a pena à força perdeu o trabalho.

O PM e o designer de 2026 não fazem o mesmo trabalho do PM e do designer de 2022. Quem fingir que faz vai descobrir, em pouco tempo, que faz uma fração – a fração que sobrou depois que a IA absorveu o resto.

Sobra o coração do ofício, que é julgamento. E julgamento se constrói com repertório, repetição e cicatriz. Nada disso a IA pode te dar.

É preciso pegá-las com as próprias mãos.