Busque o monopólio

Para ter sucesso, crie uma diferenciação tão forte para que você seja o único.

Por Fábio Assis

Essa lição eu aprendi com Peter Thiel, em “De Zero ao Um”.

No livro, o autor define monopólio como a condição em que uma empresa domina um mercado a ponto de não enfrentar competição significativa, o que lhe permite gerar lucros excepcionais e sustentáveis.

Capa do livro De Zero a Um, de Peter Thiel
Peter Thiel

Sem competição.

Lucros excepcionais.

Isso seria ruim para a sociedade, certo?

Thiel provoca: a busca por monopólios não é só desejável – é a fonte real de progresso. Empresas monopolistas têm liberdade pra inovar, apostar em tecnologia nova e moldar mercados. Empresas presas na guerra por mercados saturados só têm cabeça pra sobreviver.

Castelos, fossos e barreira de entrada

A imagem que simboliza o monopólio é a de um castelo, cercado por um fosso intransponível. A empresa fica em uma posição de destaque e protegida da concorrência.

Em termos técnicos, isso é uma barreira de entrada. Novos entrantes no mercados e concorrentes teriam muita dificuldade de conquistar esse território (ou nicho).

Na época dos monopólios estatais no Brasil, o fosso intransponível era a legislação. Apenas o Governo tinha permissões para telefonia, exploração do petróleo e aeroportos. Monopólio ruim, que impediu a diversidade e a evolução rápida.

A proteção pode ser por uma propriedade intelectual (patente de remédio ou direitos autorais de um personagem), acordo de exclusividade (exibição do Oscar e das Olimpíadas) ou simplesmente pela complexidade do projeto (é mais difícil copiar o Google do que este site).

Curiosidade: o jogo Banco Imobiliário, que em inglês é “Monopoly”, é um monopólio da Hasbro.

Aprenda com outros monopólios

Ok, já entendi que o monopólio é importante. Como conquistar meu castelo intransponível?

Pouquíssimas empresas conseguem isso. Talvez sua empresa jamais seja um monopólio. Mas não custa tentar.

Uma dica é analisar como os grandes monopólios se consolidaram:

Google

Sou velho o suficiente pra lembrar quando o Google surgiu, mais rápido e mais preciso que Yahoo! e Altavista. O algoritmo foi melhorando. O design ficou minimalista. Em pouco tempo, “googlar” virou sinônimo de buscar.

TSMC

A TSMC é a maior fabricante de chips do mundo e produz quase 60% de todos os semicondutores avançados do planeta. Apple, NVIDIA, AMD e Qualcomm dependem dela. Por décadas, ninguém imaginou que uma fundição na ilha de Taiwan controlaria a infraestrutura crítica da economia digital – mas é exatamente o que aconteceu. O fosso é técnico (litografia EUV é absurdamente difícil) e geopolítico (a especialização exige décadas e bilhões em capex). Resultado: a TSMC vira o monopólio invisível que sustenta praticamente toda a indústria de IA.

Apple

A Apple é uma das empresas mais bem-sucedidas da história da tecnologia, com uma base de usuários leal e valor de mercado colossal. Boa parte disso vem do seu poder monopolista – que não é só inovação técnica.

A metáfora que casa com a Apple é o “jardim protegido”. Diferente do castelo com fosso que barra concorrente, o jardim é um ecossistema fechado onde a Apple decide o que entra e como funciona. A App Store é o único canal para apps iOS. Comprou um iPhone? Vai preferir um Mac que conversa com ele, um Apple Watch que carrega no mesmo cabo, um AirPods que pareia sozinho. Ninguém sai por barreira – sai perdendo tudo o que amarrou junto.

Netflix

A Netflix chegou ao streaming quando distribuir vídeo pela internet ainda parecia absurdo. A conexão da maioria era lenta. TV a cabo e Blockbuster mandavam. Mesmo assim, apostaram no futuro – e mudaram a forma como a gente assiste.

Primeiro negociou catálogos com estúdios grandes e atraiu milhões de assinantes. Depois entrou no conteúdo próprio, com “House of Cards” em 2013 – uma das minhas séries favoritas até hoje. Esse lançamento provou que a Netflix entendia o público e podia competir de igual para igual com as grandes redes de TV.

Vieram Stranger Things, The Crown e uma pilha de originais que redefiniram o que uma emissora podia fazer. Pioneirismo, aposta grande e foco no espectador seguraram a liderança mesmo depois da chegada de meia dúzia de concorrentes.