Moonshots

Metas incrementais geram resultados incrementais. Às vezes o atalho é mirar na lua.

FA

Fábio Assis

Era setembro de 1962. John F. Kennedy estava no estádio da Universidade Rice, no Texas, diante de 35 mil pessoas. O calor era sufocante. A corrida espacial com a União Soviética estava no auge – e os americanos estavam perdendo.

Kennedy fez uma promessa que soou, para muitos, como loucura:

“Escolhemos ir à lua. Não porque é fácil, mas porque é difícil.”

Em 1962, nenhuma tecnologia existia para cumprir essa promessa. Nenhum foguete capaz, nenhum sistema de navegação, nenhum traje espacial. Era ficção científica com prazo definido.

Sete anos depois, Neil Armstrong pisou na lua.

A origem do sonho grande

O termo moonshot vem exatamente dali. Virou metáfora para qualquer objetivo grandioso, aparentemente impossível, que exige uma ruptura com o que existe – não uma melhoria do que já funciona.

Pensar grande não é invenção moderna. A Grande Muralha. A Catedral de Notre-Dame. O Canal do Panamá. O próprio avião dos Irmãos Wright, que voou quando a maioria dos cientistas ainda debatia se era possível. Cada geração tem seus moonshots.

No mundo dos negócios, aprendi essa linguagem com a turma da Ambev. A cultura deles tem um nome simples para isso: sonho grande. A ideia é que metas incrementais geram resultados incrementais. Se você quer transformar um setor, precisa de uma visão que pareça absurda agora.

Isso não é motivação de palestra. É estratégia.

A fábrica de luas

O Google entendeu isso tão bem que criou uma unidade de negócios inteira para isso. Chama-se X – conhecida como “a fábrica de moonshots”.

A missão do X é simples: só entram projetos que passem em três critérios. O problema precisa ser enorme. A solução precisa ser radicalmente diferente de tudo que existe. E deve haver pelo menos um caminho plausível de se tornar real.

De lá saíram o Waymo – carros autônomos que hoje rodam em cidades americanas sem motorista. O Wing – entrega de pacotes com drones. O Project Loon – internet via balões estratosféricos para regiões remotas.

Nem todos deram certo. O Loon foi encerrado em 2021. O Glass virou piada. A própria cultura do X aceita isso e chama de rapid evaluation and kill. Você não quer gastar décadas num moonshot que não vai decolar. Quer descobrir rápido o que não funciona e redirecionar energia para o que pode.

Fracasso controlado não é fracasso. É método.

E o seu produto? O que o tornaria o melhor do mundo?

Aplicar isso ao desenvolvimento de produtos exige uma pergunta que poucos times se permitem fazer:

“Se dinheiro, tempo e tecnologia não fossem limitações, como seria a versão perfeita desse produto?”

Não estou falando de incremento. Estou falando de ruptura. A versão que resolveria um problema de forma tão completa que ninguém precisaria de outra solução.

É um exercício incômodo. A maioria dos times vive no mundo das restrições – sprint, deadline, budget, dívida técnica. Pensar no moonshot parece luxo.

Mas é justamente esse exercício que separa os produtos que definem categorias dos que apenas participam delas.

Trace o caminho de trás para frente

Kennedy não disse “vamos tentar chegar na lua e ver o que acontece”. Ele colocou uma data: “antes do final desta década”.

Isso transformou o moonshot em um problema de engenharia reversa. O que falta para chegar lá? Que tecnologia não existe? Que recurso precisa ser inventado?

É a mesma lógica que a SpaceX usou para criar foguetes reutilizáveis. Elon Musk partiu da pergunta: “o que tornaria o acesso ao espaço realmente acessível?” A resposta era eliminar o custo dos foguetes descartáveis. Esse era o moonshot. O caminho de volta mostrou o que precisava ser inventado.

No produto, funciona igual. Se o objetivo é resolver completamente um problema – não parcialmente, completamente – o que falta? Uma integração que nenhum parceiro oferece? Um volume de dados que você ainda não tem? Um custo que hoje é proibitivo? Uma tecnologia que ainda não existe?

Defina o destino. O caminho aparece.

A possibilidade adjacente

Capa do livro Where Good Ideas Come From, de Steven Johnson
Steven Johnson

Aqui tem um conceito que aprendi no livro Where Good Ideas Come From, de Steven Johnson, que mudou a forma como penso sobre inovação.

Johnson chama de possibilidade adjacente o conjunto de coisas que ainda não existem, mas que poderiam existir – dado o que já existe. É como uma porta que só abre quando você abre a porta anterior.

O iPhone não poderia ter sido lançado em 1995. Não por falta de visão – as ideias estavam lá. Faltavam as telas multitouch, os processadores móveis eficientes, o ecossistema de apps. Quando essas peças apareceram, o iPhone se tornou adjacentemente possível.

O Uber esperava pelo GPS no celular e pelos pagamentos digitais. O Airbnb esperava pela confiança digital e pelas plataformas de pagamento online. A IA generativa esperava por décadas de avanço em hardware, dados e algoritmos.

Nenhum desses produtos foi inventado cedo demais. Foram inventados exatamente quando a possibilidade adjacente se abriu.

Novas tecnologias habilitam novos sonhos. O moonshot de hoje depende de uma peça que talvez só exista amanhã.

Guarde seus moonshots

Isso me leva ao ponto mais prático de tudo.

Tenha uma lista de ideias que parecem impossíveis agora. Não descarte. Não arquive como “inviável”. Guarde.

Porque o que torna uma ideia impossível raramente é a ideia em si. É uma peça que falta. Pode ser tempo, dinheiro, uma tecnologia nova, uma regulamentação que ainda não mudou, uma conexão que você ainda não fez.

Quando essa peça aparecer – e às vezes ela aparece sem avisar – você já vai ter o sonho formado. Já vai saber para onde correr. Quem já pensou no moonshot chega primeiro.

A lua sempre esteve lá. O que faltava era o foguete.