Você pode desconfiar de uma admiração.
Pessoas elogiam por muitos motivos: cortesia, interesse, conveniência, ou simplesmente porque é mais fácil concordar do que confrontar. Um elogio nem sempre quer dizer o que diz.
Mas você nunca precisa duvidar de um ódio. O ódio é sincero. Ninguém perde tempo odiando o que não importa.
É por isso que, no mundo de produto, o que mais diferencia uma equipe não é o que ela ama – todos amam as mesmas coisas. Cliente, inovação, crescimento. Estão na parede de todo escritório. O que realmente diferencia é o que ela odeia. Qual é o inimigo que tira seu sono.
Escolha bem o inimigo
O inimigo certo não é a concorrência. Nem o chefe. Nem o orçamento apertado.
O inimigo certo é o problema que você se propôs a resolver.
É ele que você precisa conhecer mais do que qualquer outra pessoa. É ele que precisa te incomodar quando você tenta dormir. É ele que precisa te fazer olhar para qualquer tecnologia nova com a mesma pergunta: “isso me ajudaria a derrotar o problema?”
O problema deve ser, ao mesmo tempo, seu grande amor e seu grande inimigo. Você o ama porque ele dá sentido ao seu trabalho. Sem ele, seu produto é só código, só feature, só ocupação. E você o odeia porque ele precisa ser vencido – todo dia, em cada release, em cada iteração.
Apaixone-se pelo problema, não pela solução
Uri Levine, fundador do Waze, escreveu um livro com esse título. A ideia é simples e poderosa: empreendedores e PMs se apegam à solução que construíram com tanto carinho que esquecem o problema original. Quando o mundo muda – e ele sempre muda – eles defendem a solução em vez de abandonar.
Apaixonar-se pela solução é a forma mais elegante de cometer suicídio profissional. Você fica protegendo o que construiu enquanto o problema arruma outra solução, melhor que a sua.
Mas eu acho que dá para ir além da ideia do livro. Amar o problema não é suficiente. É preciso também odiá-lo. Amor sem ódio vira complacência – você admira o problema, escreve sobre ele, dá palestras sobre ele, mas não o ataca. Ódio sem amor vira obsessão estéril – você se desgasta sem direção.
É a combinação que funciona: amar o problema por completo, e odiá-lo o suficiente para nunca aceitá-lo como ele é.
O problema da comunicação
Existe um problema que acompanha a humanidade desde antes da escrita: como fazer uma mensagem chegar de uma pessoa a outra, completa e rápida.
É um problema antigo. E parece eterno.
Veja a lista de soluções que tentaram resolvê-lo ao longo da história. Sinais de fumaça. Tambores. Pombos-correios. Mensageiros a pé – a Maratona de 490 a.C. existiu por causa desse problema. A escrita em papiro. Livros copiados à mão por monges. A prensa de Gutenberg. Cartas via correio. Telégrafo. Telefone. Rádio. Televisão. Fax. Braille. E-mail. SMS. ICQ. MSN. Skype. WhatsApp. Mensagem de voz. Vídeo curto.
Cada uma dessas soluções foi, em algum momento, “o futuro”. Cada uma foi eventualmente substituída ou empurrada para o canto. O fax já foi símbolo de modernidade. Hoje é peça de museu.
Mas o problema continua exatamente o mesmo. E está gerando novas soluções enquanto você lê esse texto.
Quem se apaixonou pelo fax desapareceu com o fax. Quem se apaixonou pelo problema da comunicação está bilionário com o WhatsApp. E daqui a vinte anos será outra empresa, outra solução – mas o problema vai continuar lá, gerando trabalho para quem o conhece bem o suficiente.
Conheça seu inimigo
Sun Tzu, em A Arte da Guerra, escreveu há mais de dois mil anos:
“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisará temer o resultado de cem batalhas.”
Em produto, conhecer o inimigo significa conhecer o problema com uma intimidade quase desconfortável. Não em abstrato. Concretamente. Com nomes de clientes, horários do dia, situações específicas de frustração, contextos onde ele aparece e contextos onde ele some.
Quando trabalho com um time pela primeira vez, costumo fazer um teste simples: peço para descreverem o problema que estão resolvendo, sem mencionar a solução em que estão trabalhando.
A maioria não consegue. Eles falam da feature, do produto, da plataforma. Mas o problema em si, na vida real do cliente, fica nebuloso. E essa nebulosidade é a razão pela qual tantos produtos parecem soluções procurando um problema – em vez de entender o trabalho que o cliente está tentando fazer.
Para o resto da vida
Os melhores problemas são os que nunca acabam.
A comunicação. O transporte. A saúde. A educação. O trabalho. O entretenimento. A relação com o dinheiro. Cada um desses problemas gerou centenas de soluções ao longo da história, e vai gerar centenas mais. Quem escolhe um problema desse tamanho como inimigo tem trabalho garantido pelo resto da vida.
A solução é uma roupa que o problema veste por uma temporada. Quando a moda muda, troca de roupa. O problema continua lá, nu, esperando a próxima.
Escolha bem seu inimigo. Você vai passar muitos anos com ele.

