Todo mundo tem um plano, até levar um soco na cara

Planejar é essencial. Mas o que você faz quando o plano vai por água abaixo?

FA

Fábio Assis

Mike Tyson disse isso antes de uma luta. Um jornalista perguntou se ele estava preocupado com o plano de combate do adversário. Tyson respondeu com a brutalidade direta que o caracterizava:

“Todo mundo tem um plano, até levar um soco na cara.”

À primeira vista, parece uma frase de anti-intelectual. “Para que planejar se vai mudar mesmo?” Mas Tyson não estava descartando o planejamento. Estava falando de algo mais profundo: o que você faz depois que o plano vai por água abaixo.

Spoiler: vai por água abaixo.

Ninguém deveria entrar num ringue sem um plano

O próprio Tyson era um produto de planejamento meticuloso. Seu treinador, Cus D'Amato, passou anos desenvolvendo o estilo peek-a-boo – aquela guarda alta, cabeça baixa, movimentos de esquiva explosivos. Cada detalhe pensado para maximizar a força e minimizar a exposição ao adversário.

Isso não era improviso. Era estratégia.

No mundo dos produtos, o equivalente é o discovery. Antes de escrever uma linha de código ou lançar qualquer coisa, você precisa entender o problema, o mercado, o cliente. Precisa ter uma hipótese clara de por que sua solução vai funcionar – e para quem.

Entrar no ringue sem plano não é coragem. É imprudência.

Mas o plano não é a luta. Ele é só o começo dela.

O soco que você não viu vir

Em 2009, Stewart Butterfield estava convicto de que tinha um grande produto nas mãos. Ele e sua equipe trabalhavam no Glitch – um jogo multiplayer online, ambicioso e criativo. O plano estava traçado. O mercado de games estava em alta.

Levou o soco. O Glitch não engajou o suficiente. Em 2012, fechou as portas.

Só que, durante o desenvolvimento do jogo, o time havia criado uma ferramenta interna de comunicação. Uma coisa pequena, utilitária, quase esquecida no canto do ringue. Quando Butterfield decidiu pivotar, foi essa ferramenta que se tornou o produto principal.

É algo que eu uso diariamente e você talvez já tenha usado. Chama Slack.

Algo parecido aconteceu com Kevin Systrom. Seu aplicativo se chamava Burbn – uma rede de check-in com gamificação, inspirada nos apps de localização da época. Tinha muitas funções. Talvez de menos foco. O produto não decolava.

Ao analisar os dados de uso, Systrom percebeu algo: a única função que as pessoas realmente usavam era compartilhar fotos. Cortou tudo o que não era isso. Fez um produto mínimo, focado, bonito.

Chamou de Instagram.

Assimile o golpe. Não caia.

Aqui mora uma confusão comum: adaptar o plano não é o mesmo que abandoná-lo.

No boxe, um bom lutador não desiste na primeira vez que leva um direto. Ele assimila o impacto, reorganiza a guarda, analisa de onde veio o golpe. O que mudou não é a vontade de vencer – é a estratégia para chegar lá.

Nos produtos e nas empresas, os socos têm outros nomes. Um concorrente lança antes de você. Um cliente-âncora cancela o contrato. Uma regulamentação muda o jogo. Um feature que parecia essencial não resolve o problema real do usuário.

A tentação é ou ignorar o soco – “não foi tão forte assim” – ou jogar a toalha. Nenhuma das duas é a resposta certa.

O Airbnb quase morreu em 2008. O site existia, mas ninguém queria investir. Os fundadores ficaram sem dinheiro durante a convenção democrata em Denver e tiveram uma ideia inusitada: criaram caixas de cereal temáticas – “Obama O's” e “Cap'n McCains” – e venderam 800 caixas a 40 dólares cada. Pagaram o aluguel com isso. A empresa sobreviveu.

Não é glamour. É resiliência.

Convicção não é teimosia

Tem um equilíbrio difícil aqui.

Se você muda de direção ao primeiro sinal contrário, nunca vai saber se o produto precisava de mais tempo ou se estava mesmo errado. Por outro lado, insistir em uma direção que claramente não funciona é gastar recursos preciosos em uma luta já perdida.

Como saber a diferença?

Aprendi a separar o problema da solução. O problema que você quer resolver pode ser real e urgente – e ainda assim sua solução inicial pode estar errada. Nesse caso, mude a solução. Não abandone o problema.

O Slack não abandonou a ideia de conectar equipes. Abandonou o jogo.

O Instagram não abandonou a ideia de compartilhar experiências. Abandonou a complexidade.

A convicção precisa estar no problema, não na solução.

Prepare o contragolpe

Planejar não é prever o futuro. É ter uma hipótese testável – e já imaginar o que você vai fazer quando ela falhar.

No boxe, isso se chama esquema tático. Você entra com um plano A. Mas treinou o plano B e o C. Você sabe o que fazer quando o adversário surpreender, quando o ritmo mudar, quando o cansaço bater.

No produto, isso se chama aprendizado contínuo. Discovery que não para no lançamento. Métricas que dizem a verdade antes que seja tarde. Conversas com usuários que revelam o que nenhuma planilha vai mostrar.

A pergunta não é “meu plano vai mudar?”. A resposta para isso é sempre sim.

A pergunta certa é: quando o soco vier, eu vou estar pronto para revidar?


PS: Tyson também levou socos que mudaram sua história. Em 1990, perdeu para Buster Douglas – uma das maiores viradas do esporte. Muitos decretaram o fim de sua carreira. Não foi o fim. Às vezes o soco mais importante é o que você recebe, não o que você dá.